Eu não me conformo em ser comum, ordinária.

Eu me lembro do momento exato em que pensei isso, dirigindo meu carro, subindo aquela rua alí, que vai para casa.

Dividí isso, exatamente uma semana depois, com o terapeuta. Isso e outras coisas.

Quando eu voltei à terapia, a primeira coisa que eu deixei claro era que queria ajuda para olhar adiante, porque , sinceramente, não dá para ficar lamentando o que não aconteceu, ou o que aconteceu torto até aquí e usar isso como desculpa para não andar.

Well… obviamente que precisei mexer nas caixas antigas novamente. Mas olhando para frente.

Quer coisa mais ordinária que isso?

Coisinhas miúdas que me deixam feliz:

Fazia tempo que não trabalhava de casa, que não fazia home office.

Igreja Santo Antônio - Campinas1) Uma das boas coisas de ter ficado trabalhando de casa ontem e hoje é que posso ouvir o repicar dos sinos da Igreja de Santo Antônio. Quando dá meio dia, tem um tipo de uma “musiquinha”.

2) Tomar café na padaria no sábado de manhã.

3) Ir ao cinema com o marido.

A rotina pode ser boa =)

Todo obeso, todo gordo, toda pessoa acima do peso…todos eles necessariamente têm problemas de autoestima?

O por quê de emagrecer, a maioria sabe e responde facilmente.

Mas, excluindo-se o fator saúde, para quê? PARA QUE emagrecer?

Quando é que nasce na gente a necessidade de fazer parte de um modelo?

Todo gordo é fadado a ser infeliz ou será que tem aqueles que realmente assumem e CONSEGUEM ser felizes?

Ou será que a sociedade RESUME aos gordos, sararás e pobres a realidade de que, ninguém, é feliz totalmente?

No meu ponto de vista, felicidade também é escolha. Óbvio que uns tem mais suporte ou  menos provações que outros.

Mas felicidade é escolha.

Minha obesidade me deixa triste? Muito!

Eu adoraria ter sido uma adolescente cobiçadérrima. Mas… eu vejo amigas lindas sofrendo dos mesmos males que eu.

E eu perdí muito tempo não vivendo plenamente, me apoiando nas minhas mazelas. O dia que entendí que poderia, sim, ser amada e respeitada da maneira que sou …ou tomei outras decisões parecidas em relação à minha mãe, à terceiros, etc…e toquei minha vida, foi uma libertação.

MAS MESMO ASSIM, continuo, uns tempos sim, outros não, lutando contra meu sobrepeso e querendo ser mais bonita. Porque, para mim, é uma questão de equilíbrio. Comida é meu vício e como todo e qualquer vício, me atrapalha o tal de “viver para comer”.

Voltei à terapia – me arrastando para isso …uma preguiiiiiça que só eu sei. Estou tocando em pontos que deixei de lado.

Tem gente que fica ansiosa a espera de um evento e preenche o tempo e o nariz cheirando, ou fuma unzinho. Eu como.

Minha comida existe para afugentar meu tédio e hoje, é controladora dos meus horários. E não quero isso. Não admito. Pelo menos hoje, não.

Só por hoje.

Mas, nem por um momento, eu aceito o rótulo de gorda preguiçosa, gorda infeliz ou fadada a infelicidade. Mesmo sabendo que eu preciso melhorar e muito, para mim, eu não aceito mais parar minha vida por causa das minhas banhas.

A atitude que a gente tem em frente à vida, é mais uma das difíceis escolhas que temos que tomar.

Eu tenho medo de morrer. Ontem fui conhecer a filha de amigos e , se por um lado a família estava feliz pela renovação, não pude deixar de reparar que a Bisa estava amuada.
Tenho uma tia que diz “é muito ruim ficar véio”.
Não deve ser bom, de fato. Ossos frágeis, pele sem elasticidade, músculos fracos – e isso apenas o corpo.
Mas eu, que espero ter a sabedoria para envelhecer em paz, me sinto muito vulnerável, já temo a morte.
Temo mesmo. Há dias em que vejo alguma notícia ruim, e já fico pensando que era um dia comum, para mim e para “eles”.
E finito est.
Eu acho que isso acontece muito porque eu tenho medo de não viver tudo que quero.
Mas o que realmente quero?
A Ironia é que volto à terapia para me ajudar a fazer mais e falar menos. Mas vou sem crença e paciênca para as sessões, porque acho que é uma hora a menos (fora o trânsito), uma grana a menos (“investimento, não gasto, Dani, pense assim!”) que deixo de agir ao invés de elocubrar.
Eu tenho muita saudade do que não viví, porque qualquer motivo que seja.
E uma arrogância danada por não querer acabar.

Seria isso a melancolia?

Sempre que meu marido ou amigos ficam soltando muita abobrinha (não, não são estúpidos… são aobrinhas propositais), eu digo: ‘Hoje você está especial, né?’.

Pois bem, parece que hoje especial estou eu.

Gastei 35 anos da vida para entender que uma pessoa obesa, pode sim, se gostar. Eu me atrevo até a dizer que há obesos que conseguem ter autoestima elevada e simplesmente “não ligarem” com o sistema.

Estou me achando idiota por não conseguir juntar 2+2 antes. Mas meus “sensores” de culpa, insistem em dizer que isso é apenas autoengano.

P.S.: A nova ortografia tá me matando.

Tive uma coisa, um treco durante a semana. Uma vontade danada de arrumar armários e gavetas.

Chamo de treco porque realmente uma coisa que se sente assim, não pode ser chamada diferente.

Há vários sentidos escondidos nisso, tenho certeza. Mas a vontade passa tão logo eu comece a satisfazê-la.

É um saco mesmo, mas já já vou lá dar continuidade. Eu fiz essa pausa apenas para procurar dicas de arrumação na internet. Porque sinceramente acredito que a ordem como colocamos as coisas, pode nos ajudar no dia-a-dia.

Mas eu não sei arrumar nada direito. Tento culpar o espaço do apertamento, mas mesmo que eu tivesse uma mansão, a desorganização seria a mesma. Sempre foi assim.

Mas eu quero muito organizar tudo aqui. E começar a ME reorganizar.

Se quiserem me mandar dicas úteis, aceito.

Começa aqui uma que acabei de ver… arrumar peças pequenas (como calcinhas, maquiagem e bijoux) em nichos. Eu não tenho as estruturas dos nichos em casa, então vou para o armário de toalhas.

Vou liberar espaço e doar algumas coisas. Deixar ir.

E vou tentar conseguir espaço e melhorar em disciplina para deixar algumas coisas (não necessariamente novas compras, me entendam) entrarem … entrarem no meu cotidiano.

E como diria mamãe: quem não se enfeita, se enjeita.

Para cada dia ruim no trabalho, um quadrado do bordado.

Cheio de histórias, risadas e choro, porque não?

Colo, afago, amizade e patetices.

Divido com vocês a foto da minha colcha, que as Meninas Bordadeiras e tagarelas (by meu marido) terminaram.

Uma obra de arte, linda, única. Que só eu, meu marido e Norinha vamos ter para sempre. E a colcha nos tem também. Estamos alí, no centro de tudo.

NINGUÉM, NUNCA, EVER, vai ter um presente como esse.

A Obra:

Colcha
Colcha de Delicadezas

Em ordem alfabética: Dani, Mel, Mi,  Nanny e Grazi… Vocês são as folhas que caem em meus cílios, e acho que Deus foi de uma tremenda delicadeza comigo.

O Milagre das Folhas

Não, nunca me acontecem milagres. Ouço falar, e às vezes isso me basta como esperança. Mas também me revolta: por que não a mim? Por que são de ouvir falar? Pois já cheguei a ouvir conversas assim, sobre milagres: “Avisou-me que, ao ser dita determinada palavra, um objeto de estimação se quebraria.” Meus objetos se quebram banalmente e pelas mãos das empregadas. Até que fui obrigada a chegar à conclusão de que sou daqueles que rolam pedras durante séculos, e não daqueles para os quais os seixos já vêm prontos, polidos e brancos. Bem que tenho visões fugitivas antes de adormecer – seria milagre? Mas já me foi tranquilamente explicado que isso até nome tem: cidetismo, capacidade de projetar no campo alucinatório as imagens inconscientes.

Milagre, não. Mas as coincidências. Vivo de coincidências, vivo de linhas que incidem uma na outra e se cruzam e no cruzamento formam um leve e instantâneo ponto, tão leve e instantâneo que mais é feito de pudor e segredo: mal eu falasse nele, já estaria falando em nada.

Mas tenho um milagre, sim. O milagre das folhas. Estou andando pela rua e do vento me cai uma folha exatamente nos cabelos. A incidência da linha de milhares de folhas transformadas em uma única, e de milhões de pessoas a incidência de reduzí¬-las a mim. Isso me acontece tantas vezes que passei a me considerar modestamente a escolhida das folhas. Com gestos furtivos tiro a folha dos cabelos e guardo-a na bolsa, como
o mais diminuto diamante. Até que um dia, abrindo a bolsa, encontro entre os objetos a folha seca, engelhada, morta. Jogo-a fora: não me interessa fetiche morto como lembrança. E também porque sei que novas folhas coincidirão comigo.

Um dia uma folha me bateu nos cílios. Achei Deus de uma grande delicadeza.

Clarice Lispector